Overreacted

Por Que Nós Escrevemos super(props)?

2018 M11 30 • ☕️ 5 min read

Eu ouvi dizer que os Hooks são a nova moda. Ironicamente, eu quero começar este blog listando fatos curiosos sobre os componentes de classes. Olha só para isso!

Essas pegadinhas não são importantes para o uso produtivo do React. Contudo, você pode achá-los interessantes se quiser se aprofundar em saber como essas coisas funcionam.

Eis a primeira.


Eu já escrevi super(props) mais vezes na minha vida do que eu gostaria de ter feito:

class Checkbox extends React.Component {
  constructor(props) {
    super(props);    this.state = { isOn: true };
  }
  // ...
}

Claro, a proposta de atributos de classe nos permite pular toda essa cerimônia.

class Checkbox extends React.Component {
  state = { isOn: true };
  // ...
}

Uma sintaxe como essa foi planejada quando o React 0.13 passou a dar suporte a classes em 2015. Definir o constructor e invocar o super(props) desde sempre foi pensada como uma solução temporária até que os atributos das classes oferecessem uma alternativa mais ergonômica.

Mas vamos voltar para esse exemplo usando apenas as funcionalidades do ES2015:

class Checkbox extends React.Component {
  constructor(props) {
    super(props);    this.state = { isOn: true };
  }
  // ...
}

Por que nós invocamos o super? Nós podemos não invocá-lo? Se nós tivermos que invocá-lo, o que acontece se nós não passarmos as props? Existe mais algum argumento? Vamos descobrir.


No JavaScript, o super refere-se ao construtor da classe pai. (No nosso exemplo, ele refere-se à implementação de React.Component.)

É importante lembrar que você não pode usar o this em um construtor até que você tenha chamado o construtor pai. O JavaScript não vai te deixar fazer isso:

class Checkbox extends React.Component {
  constructor(props) {
    // 🔴 Ainda não podemos usar o `this`
    super(props);
    // ✅ Agora podemos
    this.state = { isOn: true };
  }
  // ...
}

Existe uma boa razão do porquê o JavaScript requer que o construtor pai seja executado antes que você mexa com o this. Considere essa hierarquia de classes:

class Person {
  constructor(name) {
    this.name = name;
  }
}

class PolitePerson extends Person {
  constructor(name) {
    this.greetColleagues(); // 🔴 Isso não é permitido, leia abaixo para saber o porquê
    super(name);
  }
  greetColleagues() {
    alert('Good morning folks!');
  }
}

Suponha que usar o this antes de invocar o super fosse permitido. Um mês depois, nós poderíamos alterar o método greetColleagues para incluir o nome da pessoa na mensagem:

  greetColleagues() {
    alert('Good morning folks!');
    alert('My name is ' + this.name + ', nice to meet you!');
  }

Mas nós esquecemos que this.greetColleagues() é invocado antes que a chamada do super() tivesse a chance de inicializar o this.name. Desse modo, this.name não está sequer definido ainda! Como você pode ver, um código como esse pode ser bem difícil de entender.

Para evitar tais armadilhas, o JavaScript requer que, caso queira usar o this em um construtor, você precisará invocar o super primeiro. Deixe que o construtor pai faça as coisas dele. E essa limitação também é aplicada em componentes do React definidas como classes:

  constructor(props) {
    super(props);
    // ✅ Tudo bem usar o `this` agora
    this.state = { isOn: true };
  }

Isso nos deixa com outra pergunta: por que passar as props?


Você pode achar que passar as props como parâmetro para o super é necessário para que o construtor base de React.Component possa inicializar o this.props:

// Dentro do React
class Component {
  constructor(props) {
    this.props = props;
    // ...
  }
}

E isso não está longe de ser verdade - de fato, isto é o que ele faz.

Mas de alguma forma, mesmo se você invocar o super() sem o argumento props, você ainda será capaz de acessar o this.props no render e em outros métodos. (Se você não acredita em mim, tente você mesmo!)

Como isso funciona? Acontece que o React também atribui as props na instância logo após chamar o seu construtor:

  // Dentro do React
  const instance = new YourComponent(props);
  instance.props = props;

Então mesmo que você esqueça de passar as props para o super, o React ainda vai realizar a configuração das mesmas logo em seguida. Existe um motivo para tal.

Quando o React passou a dar suporte para classes, ele não fez isso somente para as classes do ES6. O objetivo era dar suporte para o maior número de abstrações de classes que fosse possível. Não estava claro o quão bem-sucedidos seriam ClojureScript, CoffeeScript, ES6, Fable, Scala.js, TypeScript ou outras soluções para definir componentes. Então, o React intencionalmente não tinha uma posição clara se era necessário invocar o super() - ainda que isso fosse necessário em classes do ES6.

Então isso significa que você pode escrever somente super() ao invés de super(props)?

Provavelmente não, porque isso ainda deixaria as coisas confusas. De fato, o React em seguida iria inicializar o this.props após a execução do seu construtor. Porém o this.props ainda estaria indefinido entre a invocação do super e o término do seu construtor.

// Dentro do React
class Component {
  constructor(props) {
    this.props = props;
    // ...
  }
}

// Dentro do seu código
class Button extends React.Component {
  constructor(props) {
    super(); // 😬 Nós esquecemos de passar as props
    console.log(props);      // ✅ {}
    console.log(this.props); // 😬 undefined   }
  // ...
}

Isso pode ser ainda mais complicado de depurar se ocorrer em algum método que é invocado de dentro do construtor. E é por isso que eu recomendo sempre usar o super(props), mesmo que isso não seja estritamente necessário:

class Button extends React.Component {
  constructor(props) {
    super(props); // ✅ Nós passamos as props
    console.log(props);      // ✅ {}
    console.log(this.props); // ✅ {}
  }
  // ...
}

Isso garante que o this.props estará configurado antes do término da execução do construtor.


Existe um último ponto sobre o qual os usuários mais antigos do React talvez estejam curiosos.

Você deve ter percebido que quando você usa a API de Context em classes (seja com a antiga API contextTypes ou com a moderna contextType, que foi adicionada no React 16.6), o context é passado como segundo argumento para o construtor.

Então por que nós não escrevemos super(props, context)? Nós poderíamos, mas o contexto é pouco usado, então essa armadilha não aparece com a mesma frequência.

Com a proposta de atributos de classe, essa armadilha praticamente desaparece de qualquer modo. Sem um construto explícito, todos os argumentos são passados automaticamente. É isso que permite que uma expressão como state = {} inclua referências para this.props ou this.context se necessário.

Com os Hooks, nós sequer temos super ou this. Mas isso é conversa para outro dia.